Artigo de Opinião ÓpticaPro, Março de 2026
Nuno Rama
Secretário de Direção da AASO
Assistente de Direção na Optocentro
Frequência de Mestrado em Estratégia de Investimento e Internacionalização no ISG
A sustentabilidade entrou definitivamente no discurso da óptica. Está nas vitrinas, nas coleções, nos catálogos e nas apresentações comerciais. Fala-se de acetatos ecológicos, de materiais reciclados, de embalagens responsáveis. E isso é, sem dúvida, um sinal positivo. Mas a pergunta que se impõe é simples e necessária: estamos a ver a sustentabilidade de forma completa ou apenas aquilo que é mais fácil mostrar?
Num setor profundamente ligado à visão, talvez o maior desafio seja precisamente este: aprender a ver para além do óbvio.
A óptica tem privilegiado uma sustentabilidade visível. A armação “eco-friendly” tornou-se o principal símbolo do compromisso ambiental. É compreensível: é tangível, comunicável e valorizada pelo consumidor. No entanto, quando a sustentabilidade se concentra apenas no produto final, corre o risco de se tornar incompleta.
Ficam muitas vezes fora do foco questões como o impacto ambiental da produção de lentes, o consumo energético dos laboratórios, o desperdício associado a refrações, ou a logística global que liga fábricas, distribuidores e ópticas.
Não se trata de desvalorizar os avanços feitos, mas de reconhecer que a sustentabilidade real raramente é simples ou imediata. Ela vive, muitas vezes, nos bastidores, nos processos, nas decisões técnicas, na organização do trabalho.
Outro desafio do setor é a confusão crescente entre compromisso e comunicação. Termos como “verde”, “eco” ou “consciente” multiplicam-se, nem sempre acompanhados de critérios claros ou métricas transparentes. Nem sempre por má-fé, mas muitas vezes por falta de literacia sustentável ( um problema transversal a muitas indústrias ).
A sustentabilidade não pode ser apenas uma narrativa bem construída. Tem de ser uma cultura integrada, que influencie escolhas reais, mesmo quando estas não são imediatamente visíveis para o consumidor final.
Talvez esteja na altura de o setor fazer menos promessas genéricas e mais perguntas concretas como por exemplo:
Este material reduz impacto ao longo de todo o ciclo de vida?
Este processo evita desperdício ou apenas o desloca?
Esta solução é durável ou apenas “tendencialmente sustentável”?
Neste debate, o profissional de óptica ocupa uma posição estratégica. Está no ponto de contacto entre indústria, produto e utilizador final. E, ainda assim, raramente é colocado no centro da conversa sobre sustentabilidade.
No entanto, muitas das decisões mais sustentáveis começam precisamente na prática clínica e técnica diária, como são exemplo, uma prescrição rigorosa reduz refrações, um aconselhamento bem feito aumenta a durabilidade dos óculos, a reparação pode substituir a substituição, a escolha de soluções ajustadas evita consumo desnecessário, entre outros.
A sustentabilidade não começa apenas no material, começa na competência. E isso devolve ao profissional um papel ativo, ético e valorizado no futuro do setor.
Durante décadas, a óptica seguiu uma lógica semelhante à da moda: coleções rápidas, tendências curtas, substituição frequente. Hoje, começa a emergir uma perspetiva diferente — a da longevidade.
Óculos não são apenas dispositivos médicos ou acessórios de moda. São objetos profundamente ligados à identidade de quem os usa. Quando há conforto, qualidade e identificação estética, cria-se algo poderoso: apego. E o apego, paradoxalmente, é um aliado da sustentabilidade.
Talvez o futuro passe menos por vender mais e mais por vender melhor. Menos descartável, mais reparável. Menos tendência, mais intemporalidade.
O caminho para uma óptica verdadeiramente sustentável não será feito de soluções únicas nem de respostas rápidas. Exigirá, mais transparência, mais colaboração entre indústria, laboratórios e ópticas, mais formação, e, acima de tudo, mais pensamento crítico.
Tecnologia, digitalização, inteligência artificial e produção mais local podem ser aliados importantes (desde que usados com intenção clara e não apenas como rótulos de inovação).
A sustentabilidade em óptica não será um ponto de chegada, mas um processo contínuo de ajuste, aprendizagem e responsabilidade.
Num setor dedicado a melhorar a visão das pessoas, talvez o maior desafio seja este: aplicar a mesma exigência ao modo como vemos o nosso impacto no mundo.
A verdadeira sustentabilidade em óptica não está apenas no que mostramos, mas no que escolhemos fazer (mesmo quando ninguém está a ver).
Porque, no fim, ver melhor nunca foi apenas uma questão de lentes. É, também, uma questão de consciência.