Artigo de Opinião ÓpticaPro, Janeiro de 2026
Miguel Penedo Domingues
Responsável Óticas OCR
Presidente do Conselho Fiscal da AASO
A sustentabilidade tornou-se, nos últimos anos, um eixo central de transformação em praticamente todos os sectores económicos — e o sector da óptica não é exceção. Num contexto global marcado pela urgência climática, a escassez de recursos e uma maior consciência ambiental dos consumidores, os players do nosso sector têm vindo a repensar processos, materiais e modelos de negócio.
A produção de armações com materiais reciclados ou biodegradáveis tornou-se uma tendência crescente nos últimos anos. Marcas globais têm investido na redução do consumo de energia e de água na produção de lentes, no reaproveitamento de sobras de acetato e na eliminação de plásticos descartáveis nas embalagens. Ao mesmo tempo, cadeias de fornecimento mais transparentes permitem garantir condições de trabalho éticas e rastreabilidade ambiental em todas as etapas, apesar de haver ainda um longo caminho a percorrer.
Nos últimos anos também se multiplicaram programas de recolha de óculos usados, quer para reciclagem, quer para doação a países ou comunidades carenciadas. Paralelamente, a aposta em modelos circulares — reparar, reutilizar e recondicionar — começa a ganhar expressão, contribuindo para prolongar a vida útil dos produtos e reduzir o desperdício.
Em Portugal, esta evolução tem sido acompanhada de perto e ganhou novo impulso com a criação da AASO – Associação de Apoio à Sustentabilidade da Óptica, que tem desempenhado um papel essencial na sensibilização do sector e da sociedade, promovendo formação, disseminando boas práticas e incentivando as empresas a adotarem políticas sustentáveis. Através de diversas iniciativas, a associação tem ajudado a posicionar a óptica portuguesa num patamar mais responsável e alinhado com as expectativas atuais.
No terreno, muitas óticas nacionais já implementam medidas concretas: substituição de sacos e embalagens por alternativas recicladas ou recicláveis, recolha de armações antigas, escolha de fornecedores com certificações ambientais, melhoria da eficiência energética das lojas e promoção de lentes e armações produzidas com menor pegada ecológica. Pequenas ações somadas geram impacto real — e mostram que a sustentabilidade não é apenas uma moda passageira, mas antes uma necessidade estratégica.
O caminho que percorremos demonstra que o sector da óptica está a adaptar-se com seriedade à mudança. Contudo, o futuro exigirá mais inovação contínua, maior compromisso das marcas, mas também políticas públicas que apoiem práticas responsáveis (por exemplo através de processos menos burocráticos), no sentido de caminharmos para um cenário em que a sustentabilidade será um requisito básico para competir, prosperar e dar resposta aos consumidores cada vez mais informados e exigentes.
O sector da óptica, enquanto área prestadora de serviços visuais, tem hoje a responsabilidade de ajudar a “ver” mais longe, proteger recursos e contribuir para um planeta mais equilibrado. O desafio está lançado. Agora, cabe-nos a todos reforçar este movimento, torná-lo irreversível e naturalmente passar a fazer parte do nosso dia-a-dia.