Artigo de Opinião MillionEyes, Outubro de 2025
Nuno Rama
Secretário de Direção da AASO
Assistente de Direção na Optocentro
A Associação de Apoio à Sustentabilidade da Óptica (AASO) tem desenvolvido um
trabalho contínuo e empenhado na promoção de práticas ambientalmente responsáveis
no setor da ótica, procurando garantir que todos os resíduos resultantes da atividade
sejam corretamente tratados, valorizados e encaminhados de acordo com a legislação
em vigor.
Contudo, este esforço encontra-se atualmente condicionado por um conjunto de
dificuldades significativas, nomeadamente no que respeita aos processos de certificação
e habilitações necessárias para o correto encaminhamento dos resíduos provenientes das
óticas.
Um dos principais constrangimentos está relacionado com o enquadramento legal
aplicável. O artigo 45.º do Regime Geral de Gestão de Resíduos (RGGR) estabelece que
a responsabilidade pela recolha dos resíduos urbanos cabe às Câmaras Municipais.
Neste âmbito, os resíduos provenientes do setor da ótica enquadram-se na categoria de
resíduos urbanos, o que, em teoria, significa que o seu tratamento e destino final —
geralmente em aterro — devem ser assegurados pelas autarquias.
No entanto, a realidade prática revela-se bastante mais complexa. Apesar da clarificação
legal, persiste uma incerteza significativa quanto à efetiva atuação das Câmaras
Municipais na recolha e gestão específica dos resíduos óticos — nomeadamente, a
dúvida sobre se estas procederiam, de facto, à recolha diferenciada e adequada destes
resíduos.
Esta indefinição coloca-nos numa posição delicada, dificultando o planeamento e a
implementação de quaisquer práticas sustentáveis.
Contactada a Agência Portuguesa do Ambiente (APA), esta esclareceu que, embora a
recolha dos resíduos urbanos seja uma competência municipal, a lei não impede que a
AASO assuma essa responsabilidade, desde que sejam cumpridos os requisitos legais
aplicáveis.
Assim, a associação avançou com um programa próprio de recolha e gestão de resíduos,
procurando garantir que estes são encaminhados para processos de valorização, e não
simplesmente para aterro. A este programa designámos CRR – Circuito de Recolha de
Resíduos.
Ainda que viável do ponto de vista legal, este sistema próprio de recolha acarreta um
conjunto de desafios adicionais. A AASO continua a trabalhar no sentido de obter as
devidas certificações e licenças, estabelecendo parcerias com operadores devidamente
autorizados, com o intuito de implementar um sistema de recolha cada vez mais
eficiente e de assegurar a rastreabilidade de todos os fluxos de resíduos.
Trata-se de um processo complexo, exigente e dispendioso, especialmente para uma
entidade de natureza associativa e sem fins lucrativos, cujo principal objetivo é apoiar o
setor da ótica no cumprimento das suas obrigações ambientais, e não substituir-se às
competências atribuídas às autarquias.
Ultrapassando o que poderia constituir um verdadeiro impasse institucional — por um
lado, a legislação atribui a responsabilidade da recolha às Câmaras Municipais; por
outro, a falta de clareza e a ausência de garantias quanto à atuação destas — a
associação vê-se obrigada a assumir encargos e responsabilidades adicionais para
assegurar que os resíduos do setor tenham um destino adequado.
Esta duplicidade de caminhos cria incerteza, aumenta a carga administrativa e dificulta
a implementação de uma estratégia de sustentabilidade sólida e coerente.
Neste contexto, a AASO tem procurado reforçar o diálogo com diferentes entidades e
instituições, como as Câmaras Municipais, a Agência Portuguesa do Ambiente e outros
operadores, de forma a clarificar responsabilidades, definir procedimentos e estabelecer
soluções conjuntas que garantam o cumprimento das obrigações legais e ambientais.
Apenas através de uma articulação clara e eficaz entre todas as partes interessadas será
possível assegurar que os resíduos provenientes da ótica sejam corretamente valorizados
e integrados numa verdadeira lógica de economia circular, contribuindo assim para uma
gestão mais sustentável e responsável dos recursos.
A AASO não exclui nenhuma estratégia que possa facilitar a prossecução dos seus
objetivos, sendo a celebração de protocolos de colaboração que assegurem a recolha
diferenciada e o correto encaminhamento dos resíduos uma opção em aberto.
Ao assumir diretamente estes desafios e responsabilidades, a sustentabilidade financeira
torna-se também fulcral para a sua ação. Assim, a associação monitoriza e avalia
continuamente a viabilidade técnica e económica da obtenção das certificações
necessárias e da celebração de parcerias com operadores licenciados para a valorização
dos resíduos.
Estas medidas permitirão reforçar o seu papel como entidade promotora da
sustentabilidade no setor da ótica, garantindo que o cumprimento das obrigações
ambientais é realizado de forma eficaz, legal e responsável.
Não obstante o exposto, a AASO encara o desafio como uma oportunidade e, em nome
do setor — mas sobretudo dos seus associados —, mantém-se na linha da frente,
preparada para enfrentar as dificuldades e ultrapassar os obstáculos, sempre consciente
de que a sua ação contribuirá para um setor cada vez mais sustentável e limpo.